Saturday, July 02, 2011

A incontinência informativa da Assembléia Legislativa de Mato Grosso


A Assembléia Legislativa de Mato Grosso gasta um bom dinheiro com jornalistas e publicidade, foram mais de 17 milhões de reais só em 2010. Uma montanha de dinheiro, convenhamos. Parece que nossos deputados têm sede de transparência, sofrem de uma espécie de incontinência informativa crônica, como bem definiria Odorico Paraguaçu. Será? Engraçado, não faz muito tempo lia sobre a dificuldade enfrentada pelo jornalista Fábio Pannunzio para ter acesso ao lotacionograma com o nome dos servidores da AL, seus cargos e salários. E olha que, pelo que entendi, tal informação deve ser publicada no Diário Oficial, divulgada na Internet, deve ser exposta com a mesma insistência com que os serviços de telemarketing tentam nos vender o que não queremos comprar. Mesmo o montante do que gasta com imprensa e publicidade a AL não parece assim tão empenhada em divulgar. Aparentemente os dados somente foram fornecidos porque o Tribunal de Justiça obrigou os deputados a apresentarem a relação dos gastos. Teria sido uma informação prestada meio que na marra, meio a contra-gosto, pelo que entendi.
Tento não achar, assim de saída, que a AL não tenha o que dizer, o que informar ao cidadão. E até compreendo que se gaste algum nesse esforço de informar. Mas tanto dinheiro assim? E para quê? Para nos manter realmente informados sobre o que acontece e o serviço que nos prestam ou para comprar e silenciar aqueles que deveriam nos manter bem informados? Segundo alguns, segundo muitos!, é para isso que esse dinheiro serve.
Mas vamos imaginar que nossos representantes, mesmo os que tenham as fichas mais sujas, mesmo os mais corruptos e contumazes compradores de votos e sabe Deus do que mais, não gastem dinheiro da AL, nosso dinheiro!, para silenciar a imprensa - e que nem os jornalistas e nem os donos de veículos aceitem receber dinheiro para se manter em silêncio, para desinformar seu público, que absurdo! - e tentemos acreditar que podem ter sido mais de 17 milhões inteligentemente e republicanamente bem investidos. Vamos tentar, vamos tentar. Nesse caso, já que pairam dúvidas, penso que cabe a quem investiu dizer de que maneira (onde nós já sabemos), com que propósito e quais os resultados obtidos, para que possamos ter clareza do que foi feito e para dizer se achamos justo que se gaste nosso dinheiro dessa forma. E acho que cabe a nós, filhos, pais, professores, jornalistas, padeiros, quadrinhistas, escritores, músicos, malabaristas, pipoqueiros, cristãos, ateus, éteros, gays, simpatizantes, liberais, reacionários e quem mais quiser, opinar sobre o acerto de tais investimentos. Por que não se faz uma audiência pública para se discutir os gastos com publicidade, para se normatizar tais gastos? Que tipo de comunicação os poderes devem produzir? É justo e desejável que se gaste tanto com comunicação? Ou 17 milhões nem é tanto assim e vai que alguém defenda um orçamento ainda maior? Essa seria uma bela discussão. O que a AL, o que os governos têm a dizer ao cidadão, o que devem dizer ao cidadão? Estão nos dizendo o que devem, até por obrigação de informar, nos dizer? Devem produzir peças lindas e superficiais, povoadas por gente feliz e bem tratada pela vida, com um off aveludado dizendo que somos o povo mais feliz do mundo ou devem produzir belas, honestas e criativas peças informativas e educativas? E o que seriam belas, criativas e honestas peças informativas e educativas produzidas com o dinheiro público?

Sunday, May 08, 2011

É uma biblioteca. E quem poderá dizer que não é?


Quinta-feira. Três horas ou algo assim e se ficar mais umas duas horas no centro da cidade tenho como resolver de vez um assunto chato. É isso ou voltar amanhã. É hoje, tem que ser. Resolvo circular pelo centrão de Cuiabá, tem um sebo perto do calçadão, posso matar o tempo por lá. Não vai ser possível: o sebo fechou. Duas horas parecem uma eternidade quando não há nada para se fazer. Sim, tem a biblioteca municipal, logo ali no Clube Feminino. Biblioteca? Bem, de certo modo é preciso reconhecer que a Biblioteca Municipal Manoel Cavalcanti Proença é uma biblioteca, afinal os livros estão lá, dormitando em suas estantes, e também tem umas cadeiras e umas mesas. É uma biblioteca? É, é uma biblioteca, como dizer que não? Mas é uma boa biblioteca, atrativa? Não. É um espaço diminuto, muito feio, nem de longe atraente. Suspeito que não é para ser atrativo mesmo, até porque seria bem complicado se umas dez pessoas, ou quem sabe um pouco mais, cismassem de dar uma passadinha por lá ao mesmo tempo. Eles lotariam, superlotariam talvez, o espaço. A biblioteca existe, muito provavelmente, porque há uma lei determinando sua existência, não existe como projeto de civilização, como espaço formador de leitores, de estudos ou de convivência – suspeito que nossos gestores não dão a mínima para ela. Claro, dirão que estou enganado, que ela cumpre bem o seu papel, como também podem dizer que o Pronto-Socorro, que foi reformado ainda outro dia, cumpre seu papel ou mesmo que a coleta de lixo funciona direitinho, mas a verdade é que a coleta de lixo anda um lixo, e não é só ela.
Acho que os aparelhos públicos não funcionam mal em certas cidades por acaso, tem que ser assim para que o nível de exigência das pessoas mantenha-se baixo. Se o cara internado num pronto socorro tem que rebolar para não morrer afogado num dia de chuva, esse cara não vai chiar porque demorou a ser atendido ou porque tem que ser medicado pelos corredores. O importante é sobreviver à enchente, entende? Só por isso o cara já fica  contente da vida, se anima e acha que com um pouco mais de sorte não contrai uma infecção hospitalar, talvez até saia vivo lá de dentro.
Gestores ruins, e nós temos dúzias deles espalhados pelo país, temem serviços eficientes. Serviços eficientes costumam resultar em cidadãos cada vez mais exigentes e críticos. É um caminho sem volta. O caos, onde for possível instalá-lo, é fundamental. Quem se vê obrigado a lutar constantemente pelo mínimo não tem como elevar seu nível de exigência. Há algum tempo estive em Várzea Grande acompanhando minha mulher, ela é estudante de arquitetura, e por conta de um trabalho teve que fotografar o Fiotão. O ginásio é um grande condomínio de pombos, cada um deles dotado de um cuzinho nervoso de onde saem toneladas de cocô o tempo todo. Eu olho praquele negócio, comento o absurdo daquilo e então um guri de uns 15 anos que ouvia a convsersa diz que ‘não tem problema, tio, eles limpam aqui quando tem festa’. Quer dizer, o garoto está lá, junto com os amigos, jogando bola no meio da merda e aceita aquilo, como se uma limpeza em dia de evento resolvesse a coisa toda. Não é genial? O gestor mantém as pessoas no meio da merda e com o tempo elas aceitam a idéia de que se limparem a caca em dia de festa já está de bom tamanho. Nem vilão de filme B seria capaz de tamanha maldade.
De volta à Manoel Cavalcante Proença (que deve estar se revirando em seu túmulo): diante de uma estrutura tão raquítica como esperar que haja um público ávido por ocupar aquele espaço? Imaginava passar algumas horas por lá, lendo jornais, revistas e quem sabe descobrindo algum livro bacana no acervo. Sem chance, não há jornais ou revistas e os livros, pelo que soube passaram longos 5 anos encaixotados, ainda não estão totalmente organizados. Um lugar tristíssimo essa biblioteca, uma espécie de negação da idéia de biblioteca. Engraçado é que quando estou de saída ouço de alguém que os cuiabanos não se interessam por livros, por isso o espaço andar tão vazio àquela hora. Sim, claro: a culpa é do povo. A culpa é sempre do povo!
Outro dia um médico fez um tour pelo Pronto-Socorro de Cuiabá e mostrou como anda a coisa por lá, uma realidade bem diferente daquela que a propaganda oficial tenta nos vender de tempos em tempos. Bem que a moda podia pegar. Quem se interessa por literatura, pelo papel que ela pode desempenhar na vida das pessoas e tiver uma câmera (de celular serve) podia passar pela biblioteca do Clube Feminino de vez em quando (pelas outras também), registrar o que viu e botar nos youtubes da vida. Seria bacana escolas levarem seu alunos para passar uma tarde ou uma manhã naquele glorioso templo do saber, lotar suas dependências e avaliar a qualidade do serviço. Estudantes de letras podiam circular por lá e dividir suas impressões com a gente. A realidade das escolas, museus, bibliotecas, hospitais e outros aparelhos públicos espalhados por esse país não será divulgada pela imprensa oficial e nem por uma imprensa cada vez mais dependente do dinheiro público. Cabe a nós, escrevendo artigos ou com uma câmera na mão e a indignação na cabeça denunciar o verdadeiro estado das coisas. Em justíssima causa própria.

Monday, May 02, 2011

Contrato de representação


Todo mundo quer uma reforma política, na esperança de que com ela o show de horrores em que se transformou a política brasileira chegue ao seu final. Não creio muito que isso vá ocorrer – em algum nível sim, mas não acredito que ela terá o impacto que desejamos e sonhamos. Com reforma ou sem reforma nada impedirá que os eleitos continuem criando leis obscenas, como essas que asseguram suas aposentadorias após exercício de certos mandatos (mesmo quando exercidos por poucos dias). Creio que tão importante quanto a reforma política (e ela é importante e sou um dos que sonham com ela e esperam por ela) é a elaboração de um Contrato de Representação. Contrato mesmo, igualzinho a esse que patrões e empregados assinam ao acordar um vínculo empregatício. O que temos hoje são apenas essas promessas de determinados comportamentos que os candidatos nos fazem e poucos, pouquíssimos!, cumprem, ainda que parcialmente. Não vou mudar de partido, eles nos dizem, não vou deixar o mandato pela metade, eles mentem e por aí vai. Dizem um monte de coisas, assumem montanhas de compromissos e no final das contas se empenham em descumprir tudo o que foi acordado com o eleitor. É provável que parte dessas quebras de contrato cheguem ao fim com uma reforma política, mas ainda é pouco. Sempre será possível que na calada de uma noite qualquer de final de ano eles votem uma dessas detestáveis aposentadorias especiais, para ficarmos só em um exemplo. Daí a necessidade de junto com a reforma existir o tal Contrato de Representação. Se em um contrato, ao qual todo representante eleito estiver submetido, existir uma cláusula determinando que a única remuneração a qual ele terá direito será o seu salário (digamos que de X mínimos) e que a esse salário não será incorporado nenhuma gratificação ou aposentadoria, nem para si, seus filhos, para suas viúvas ou sabe-se lá para quem mais, aí será razoável imaginar que se começa a estancar uma parte da sangria que esses senhores promovem no dinheiro público. Mais? Bem, se nós empregamos então devemos nos comprometer a oferecer uma estrutura mínima, porém razoável, para o exercício de uma determinada atividade. Mas somos nós quem ditamos o tamanho da estrutura já que somos nós quem pagamos por ela. Só que quando não há um contrato, quando o contratado é quem determina o tamanho da estrutura, o circo está armado. Será que vereadores, deputados, senadores, presidentes e outros eleitos precisam mesmo do batalhão de servidores que colocam a seu serviço? O camarada é contratado para nos representar, no congresso nacional por exemplo, e do dia para a noite vira um grande empregador, com sei lá quantos funcionários em seu gabinete. Precisa de tanta gente? E mais: tem mesmo que ser uma equipe escolhida por ele? E se o contratado chegar ao seu gabinete e já encontrar uma equipe esperando por ele? Tudo gente preparada, que prestou concurso público, e está ali para se dedicar exclusivamente ao gabinete que ele irá presidir por 4 anos? Ah, mas um deputado ou prefeito ou outro eleito qualquer precisa ter gente de sua confiança no gabinete, dirão alguns. Então as leis que regem o funcionalismo público não são capazes de garantir um grau razoável de confiabilidade? E se não forem, se algum servidor estiver abaixo da expectativa ou pouco comprometido com sua função, estou seguro que o cara certo para demonstrar esse pouco preparo ou comprometimento é o cidadão escudado pelo mandato representativo. Ele, mais do que eu ou você, poderá chamar às favas o mau servidor. Chamar, demostrar e muito provavelmente dar início ao processo que resultará numa demissão, quando for o caso. Se nós contratamos a equipe é nossa! E se o pretendente a determinado cargo eletivo não concorda com o contrato proposto então já está fora, ele que vá cuidar de sua vida. Impossível funcionar desse jeito? Parece que os suecos (sempre eles) já administram desse modo e a coisa tem funcionado muito bem por aqueles lados. Pelo que soube a entourage de um deputado por lá se resume a umas quatro pessoas, os demais servidores são todos do congresso ou dos partidos. Se funciona lá pode funcionar por aqui. Aliás aqui, do jeito que está, tem funcionado bem?
Não vou me estender mais, até porque não entendo nada de contratos, mas estou seguro que um Contrato de Representação exequível, bem redigido, honesto e maduro seria capaz de contribuir tanto quanto uma reforma política pra dar jeito na bagunça que é a representação eletiva brasileira. Tanto quanto ou quem sabe mais ainda! Alguém aí entende de contratos?


Friday, April 29, 2011

Matador de Gavião


Gavião dá muito prejuízo. O camarada que cria galinha tem prejuízo demais por causa desse bicho. A galinha dele está lá, coitada, ciscando, procurando minhoca, e quando menos se espera o gavião vem lá do alto e crau! Sem chance de a galinha se safar.
Gavião não é muito grande não, do tamanho de um galo. Quando muito um pouco maior, muito não, pouca coisa, mas é bicho forte, esperto - agarra galo, galinha e até gato, isso não é raro, acontece demais! Gato é das presas que mais dão trabalho, o bicho fica esperneando, arranhando o gavião e aí então, quando já subiu um pouco, uns seis metros ou um pouco mais, o gavião solta o gato que não sabe voar e se arrebenta todo, se espatifa lá embaixo – morre ou fica imprestável, indefeso, todo quebrado -, aí então o gavião volta, pega o gato e leva o gato para comer. E come tudo? Não, não come não. Só as partes que gosta e aí deixa pra lá. Depois dá uma comidinha na dona gavião, que ele é um bicho safado, fodedor, e vai bater asas por aí. Vida boa a do gavião, melhor não há. Depois, quando bate fome, ele volta pra comer o que sobrou do gato? Volta não, deixa pra lá. Vai é atrás de uma galinha, que galinha é ainda melhor que gato e tem muita galinha por aí.
Digamos que ele tenha costume de atacar numa granja qualquer, então ele vai deixar de pegar uma galinha pra comer pedaço de gato que matou há não sei quantas horas, bicho frio já, cheio de formiga a essa altura? Nem a pau! O gavião vai é atrás de uma galinha. E de outra e de outra. Ele gosta de caçar, entende? O bicho é predador. E o dono da granja? Esse fica no prejuízo, coitado. Daliberto, conhecido meu, já matou muito gavião. Cada gavião morto o dono da granja pagava com uma galinha. Daliberto, que era muito pobre, passou foi bem por esse tempo. Gostava muito do Daliberto. Ele já morreu, coitado, que Deus o tenha. Um dia desses falo dele pra você, te conto umas histórias dele, mas agora quero falar e de gavião.
Comerciante também tem muito problema com gavião. E também paga para quem matar gavião. Porque o negócio é que tem que dar jeito no gavião, entende? Pensa comigo: o gavião vai e assalta a loja do sujeito uma vez. O comerciante denuncia, procura a polícia e diz que gavião atacou o negócio dele, denuncia o gavião e coisa e tal. E a polícia nada. E o gavião ataca de novo. E a polícia nada. E o gavião ataca de novo, mete revólver na cara do comerciante, bate no comerciante. Tem uma hora que o sujeito está trabalhando pra encher a barriga do gavião. Aí não dá mais, não dá pra continuar daquele jeito. Aí o comerciante não chama a polícia não, que polícia não resolve, não é mesmo? É nessa hora que o comerciante bate na minha porta. E quando bate na minha porta o comerciante já tentou de tudo e sabe que eu não vou só pedir para o gavião ir roubar noutra freguesia, o comerciante sabe que meu negócio é matar gavião. Então não tem que ficar sem jeito, não tem que ficar se explicando, não tem que falar que não queria chegar naquele ponto e nem mais isso e nem mais aquilo. Não precisa e eu não gosto desse tipo de conversa. Tem é que pagar o que eu cobro para matar o gavião e deixar o resto comigo. É para matar o gavião? Então paga que eu mato o gavião. E pronto e não se fala mais nisso.
Gavião não quer morrer. Todo mundo morre, ninguém quer morrer. Gavião é que nem todo mundo, também não quer morrer. E chora, e diz que tem mulher e filhos para criar, isso quando é gavião mais velho, e diz que tem mãe pra sustentar, quando é gavião mais novo. Tem mais gavião mais novo que gavião mais velho – que gavião costuma morrer cedo. E na hora de morrer o gavião se caga todo e pede pelo amor de Deus e isso e mais aquilo e eu não dou conversa e passo fogo no gavião. E aí dou sumiço no gavião. E não adianta nem mãe, nem mulher, nem filho e nem sei lá quem mais ficar procurando o gavião, que não vai achar. E fica a parentalha de gavião enchendo o saco da polícia, querendo que a polícia dê jeito de encontrar o gavião. E polícia lá quer saber de gavião? Polícia dá graças a Deus quando alguém passa fogo em gavião. Até polícia mesmo costuma dar jeito no dito cujo. Se lojista pedir para prender o gavião a polícia não faz nada, mas se pagar para matar o gavião, aí a guarnição faz fila para ganhar o dinheiro do lojista – que policial é tudo matador de gavião. Minha sorte é que lojista não gosta de negociar esse tipo de serviço com policial, senão a concorrência ia acabar com meu negócio. Ia acabar? Acabar talvez não, que é você matar um para nascerem logo outros dez gaviões. Parece que ninguém mais quer carpir quintal, duvido que se o camarada botar uma enxada nas costas e descer uma rua como aquela ali e bater na porta das casas e falar que capina o quintal de um e outro, duvido que ele não consiga algum dinheiro. Mas neguinho não quer ganhar o pão carpindo quintal debaixo desse solão não senhor, neguinho já nasce querendo ser gavião. Neguinho acha que se virar gavião vai ter vida fácil. E não é que não vai, não é que não vai – quem disse que não vai? Se aprender depressa pode até se dar bem sim, que neguinho pode ganhar mais dinheiro virando gavião que carpindo quintal. É o tal negócio: estudou? Não estudou? Então vai ter que ir pra enxada ou virar gavião. Enxada não dá camisa pra ninguém, então o neguinho vira gavião. E vira gavião e ataca o negócio do lojista e o lojista reclama pra polícia que não faz nada e o gavião se anima e ataca de novo e o lojista vai atrás da polícia que nem quer escutar o que o lojista tem para dizer e aí o gavião ataca de novo e enfia a mão na cara do lojista e aí o lojista me chama. Aí eu mato o gavião e fim de papo. E fim da história.

Wednesday, April 20, 2011

O dia em Que Copacabana invadiu Madureira

Um sujeito aí, um tipo que apareceu em Madureira outro dia, saiu com uma pequena do harém do Bonitão, a Eunice. Isso transformava nosso Porfírio Rubirosa num corno? Era sobre isso que estávamos discutindo aquela noite, no boteco do Mossoró.
— Cornudo, claro. Batata — disse alguém.
— Mas o que é isso? E desde quando amante é corno? — retrucou um outro.
— Concordo. Chifre é coisa de marido, namorado ou amasiado – emendou qualquer um. — Se você não é nem uma coisa nem outra não tem como ser corno.
Até o Mossoró deu palpite:
— Pois eu diria que o amante é sempre um corno. No mínimo do marido, do titular.
Foi quando eu, voltando do banheiro, perguntei ao Paranhos, assim que me sentei à nossa mesa:
— E aí? É corno ou não é corno?
E ele, misterioso:
— A questão não é essa.
Todos olharam pro Paranhos, esperando que ele fosse mais claro, completasse o raciocínio, mas o policial permaneceu em silêncio, pensativo.
— E qual é a questão, carambolas? – provoquei.
E ele, assumindo ar de detetive de filme inglês:
— A questão é que o Bonitão foi alvo de um ataque inimigo.


A VÍTIMA

Mais tarde, ainda naquela noite, no conjugado do Bonitão, concluí que o Paranhos estava certo, coberto de razão. Alguém havia declarado guerra ao malandro e seu orgulho tinha sido a primeira vítima do conflito.
— Vivia aqui, ó!! — dizia, arrasado, olhando pra palma da mão. — Era eu estalar o dedo que ela deixava o marido chupando um Chicabon pra vir atrás de mim.
E dava pra ver que era uma questão de orgulho mesmo, que não tinha nada a ver com o fato da Eunice dar presentinhos caros pra ele, de pagar o aluguel do seu conjugado.
Descontrolado, se levantou repentinamente e caminhou até a porta, querendo sair – e não era em missão de paz. Eu não deixei.
— Eu mato esse cara! — ameaça. — Eu mato esse cara!!
— Ei, calma, muita calma nessa hora.


O ÚLTIMO A SABER

O inimigo se chamava Valadão. Pintoso, bom de papo e desocupado, avançava sem pena nem dó pelo território do Bonitão, conquistando posições estratégicas. Aliás, o avanço inimigo era o assunto do dia seguinte, outra vez no boteco do Mossoró.
— A Judite? Essa não é aquela boazuda, a mulher do farmacêutico? — alguém quis saber.
— Essa mesmo — informou outro alguém. — O tal Valadão está papando. Todo mundo está sabendo, menos o marido. O marido e o Bonitão, coitado.


GENERAL PARANHOS

Bonitão, que só não foi o último a saber porque essa honra pertence ao marido, queria matar, queria dar tiro. Quase teve um piripaque. Foi salvo por mim e pelo Paranhos, que, voluntário na tomada de Monte Castelo, tinha idéias claras sobre como conduzir uma guerra:
— Não adianta dar chilique. O negócio é impedir o avanço inimigo. Diz pra mim: o que você sabe sobre esse Valadão?
— Como assim o que eu sei sobre ele? Que o filho da mãe está deitando e rolando no galinheiro do Zezinho aqui, é isso o que eu sei sobre ele.
— Você e toda a torcida do Flamengo. Mas isso não é importante... Importante é conhecer o inimigo, é saber quem ele é, de onde ele vem.
— E de onde ele vem, carambolas? – quis saber o Bonitão.
E o Paranhos, transpirando vaidade profissional:
— De Copacabana. Vem de Copacabana, andei investigando. Um filho da mãe igual a você, desocupado que nem você. Só que com dinheiro. A mãe é viúva de um oficial da marinha. O negócio dele é gastar a aposentadoria da velha.
— E agora que a gente sabe quem ele é, faz o quê? – perguntei ao ‘general’ Paranhos.
— É, o que a gente faz? – Bonitão reforçou. E meio que perguntou, meio que sugeriu: — Matamos ele?


UM BOM LUGAR PARA GUERREAR: COPACABANA

Não matamos ninguém. Fomos passear em Copacabana.
— Traremos a guerra pra casa do inimigo, que é onde o sangue deve jorrar — discursou Paranhos, enquanto eu estacionava onde ele ordenou e de onde dava pra ver uma pequena sensacional vindo da praia.
— Mas que coincidência boa – comemorou Paranhos, apontando justo pra pequena que eu estava fotografando. — Olha lá... A noiva do Valadão. Ela passa o tempo todo na praia...
— Noiva do Valadão? — indagou Bonitão, interessado. — Papagaio.
O plano do Paranhos era, por incrível que pareça, dos mais geniais:
— Eu, se fosse você, atacava com tudo, não deixava sobreviventes.
E eu apoiei:
— Isso! Às favas com a convenção de Genebra.


O DESEMBARQUE

Quem visse, ao longo dos dias seguintes, Bonitão se aproximando da noiva do Valadão, todo simpático e generoso, com um Chicabon sempre à mão, não poderia imaginar que estava presenciando uma operação de guerra muito mais sangrenta que o desembarque aliado à costa da Normandia. E quando ele atacou pra valer, fez gato e sapato atrás das linhas inimigas.
— Ai... Assim você me mata. Assim você acaba comigo — gemia a noiva do Valadão, enquanto Bonitão despejava todas as suas bombas por entre as pernas da pobrezinha.



DECLARAÇÃO DE GUERRA

Depois foi só esperar o inimigo vir até nosso QG, no bar do Mossoró, assinar a rendição. Ele veio mesmo, mas nem pensava em rendição. Muito pelo contrário. E bota pelo contrário nisso!!
— Qualquer uma, mas qualquer uma mesmo. No duro, ouviu? Eu pego qualquer uma... Você me diz qual é que eu pego...
Resumindo: Valadão disse que comeria toda e qualquer amante do Bonitão. Que se não conseguisse não botava mais os pés em Madureira. Mas pra cada uma que ele pegasse Bonitão teria que conquistar uma posição em Copacabana, digamos assim. E ao primeiro fracasso, além de depor as armas, o derrotado teria que abrir suas fronteiras pro inimigo.
— Sem impor condições! — desafiou. — O vencedor pode pintar o caneco.
Quem foi que disse que o Bonitão tinha medo de ir pra guerra?
— Eu topo — disse, apertando a mão do inimigo.


TUDO NOVO NO FRONT

Pelos dias seguintes a batalha foi dura, encarniçada, posições iam sendo conquistadas de lado a lado e não havia a menor esperança de paz. Todo dia havia algo de novo no front. Mas Bonitão, apesar dos sucessos no campo de batalha, parecia ligeiramente deprimido.
— Está reclamando do quê? — perguntei. — Aposto e ganho que nunca comeste tanto.
E ele, sério:
— É. Mas jurava que o tal Valadão não ia papar tanto e tão fácil no galinheiro do Zezinho aqui.
— Ofendido por suas amantes traírem seus maridos com outro cara além de você? Falando no outro...
Ele mesmo, Valadão, o inimigo, adentrava o bar do Mossoró, onde estávamos Bonitão e eu. Cínico, veio direto a nossa mesa e entregou um ursinho de pelúcia pro Bonitão.
— Conhece? — provocou.
Fiz ao Bonitão uma pergunta cuja resposta já conhecia:
— Comeu?
E ele:
— Comeu! — e me passando o ursinho de pelúcia — Eu que dei de presente pra Odete.
— Foi moleza — zombou Valadão. — Mas sei de uma lá em Copacabana que você não papa. Sabe como é, mulher bem comida...
— O nome. Dá o nome da pequena e vamos ver.


UM GENTLEMAN

A posição a ser conquistada era uma tal Magda, pequena que vivia no prédio do Valadão. Ao contrário do que fora alardeado pelo inimigo, um alvo fácil. Não demorou muito, Bonitão já tinha comido e estava de saída do apartamento dela.
— Quer mesmo? No duro? — Magda gemeu, entregando uma fotografia pro garanhão. — Pra quê?
E ele:
— Pra te ter sempre perto do meu coração.
Daí a pouco, após se desvencilhar da pequena, está esperando o elevador. Quando a porta se abre, uma mulher de uns cinqüenta anos, muito bonita, sai lá de dentro, carregando muitas sacolas. Deixa uma delas cair.
Ele:
— Opa. Deixa que eu pego.
Ela:
— Muito obrigada, não precisa.
Ele:
— Que isso... É um prazer. Posso levar até seu apartamento?
Ela, encantada:
— Ah, faz favor? É o 608, ali no fim do corredor.
No minuto seguinte estão diante do apartamento dela.
— Quanta gentileza... Não tem mais disso hoje em dia não. Meu falecido, que era da marinha, também era assim sabe? Um gentleman.
Ela abre a porta do apartamento e eles entram. E o Bonitão, que ficou um tempão lá dentro, foi um gentleman com ela.


RENDIÇÃO

No dia seguinte, quando Bonitão jogou a foto da Magda sobre a mesa, Valadão tentou minimizar o feito do adversário:
— Também essazinha aí vai com qualquer um... Alvo fácil!
— Bota fácil nisso — concordou Bonitão. — Tava carente, coitadinha — e virando-se pra mim e pro Paranhos — Sabem como é, mulher mal comida se entrega fácil. Que nem francês quando alemão cisma de falar grosso.
Valadão se irritou um pouco:
— E agora, quem eu vou ter que papar? Uma bem difícil, faz favor.
E Bonitão, muito calmo, como se não estivesse no meio de uma guerra:
— Uma dona lá de Copacabana mesmo... Você nem vai ter que sair do teu prédio.
— No meu prédio?
— É. Mas essa eu acho que você ainda não papou.
E atira sobre a mesa uma foto onde a mãe do Valadão aparece em companhia do falecido marido.
— A foto é antiga, mas ela ainda dá um caldo — e, como na foto o pai de Valadão aparecia com sua farda de oficial da marinha, complementa: — Vai tranqüilo que o milico já empacotou!
Valadão quase infarta ao reconhecer o casal da foto.
— Mã... Mamãe...
Parte pra cima de Bonitão, agarra o inimigo pela camisa.
— Você nunca mais... Mas você nunca mais mesmo...
Paranhos precisa segurar Valadão pra ele soltar Bonitão. Apanho a foto da mãe de Valadão, esquecida sobre a mesa, e devoro a coroa com os olhos. Ela era muito boa mesmo.
E o Paranhos, empurrando Valadão:
— Fica quieto aí, elemento. Querendo levar um catiripapo, está?
E o filho daquela mãe sensacional grita pro Bonitão, com a promessa de morte no olhar:
— Nunca mais, ouviu?
— Nunca mais o quê? — devolve o garanhão. — Eu papar a tua mãe? Olha, se você parar de ciscar no meu galinheiro...
Valadão entendeu o recado e capitulou. Entregou a guerra sem negociar a rendição. Levantou-se pra ir embora, bruscamente. E já estava quase na porta do boteco quando voltou pra recuperar a foto dos pais. Precisou arrancá-la da minha mão. Daí foi embora. E nunca mais botou os pés em Madureira.
E o Bonitão, como se não tivesse vencido a terceira guerra mundial, gritou pro Mossoró:
— Vê uma aqui, ó. Uma bem gelada.

Tuesday, April 12, 2011

A velha e boa pornografia


Não deve ser nada fácil ser um ator ou uma atriz pornô, não acredito que a carreira esteja entre as primeiras escolhas profissionais de alguém. Conheço um bocado de gente sonhando com medicina, com veterinária, com direito, querendo ser modelo e manequim. Sei lá, pode ser que uma parcela muito pequena da população sonhe com essa carreira, mas não sei de ninguém, não conheço ninguém sonhando com um futuro na indústria da pornografia. Correndo o risco de ser moralista, acho que são mais as derrotas existenciais e econômicas que empurram as pessoas para o ofício. A outra metade, um filme que eu não vi, é um pornô. Ao menos na opinião do senador paranaense Roberto Requião é um filme pornô. A quem diga que é um filme erótico, mas para o senador, que deve ter visto a obra e deve saber qual a diferença entre erotismo e pornografia é um filme pornô. E para ele ator pornô não pode ocupar cargo no serviço público. Pois não é que Valter Pagliosa, ator de A outra metade, foi nomeado para uma diretoria regional do Instituto Ambiental do Paraná, o IAP? Bom, como lugar de ator pornô parece ser fazendo filme pornô, Requião começou uma cruzada (!) contra o moço e Pagliosa caiu. Se é que tem algo de pornográfico nessa história acho que a suposta profissão de Pagliosa é o de menos. Diria mesmo que não tem a menor importância. Foda-se (!) que ele tenha feito ou um ou tenha feito cem filmes pornográficos, se é que fez. E daí? Confesso, acho muito bom ouvir que alguém é ex-ator pornô ou que é ex-atriz pornô. Sei que é uma fala conservadora, mas digo isso por achar que pouca gente é assim tão feliz atuando nessa indústria. E ficaria contente da vida vendo um batalhão de ex-astros do pornô atuando em profissões menos estressantes e perigosas que a de ator de filme de sacanagem. Sim, até mesmo no serviço público, caso sejam competentes para conquistar espaço em suas fileiras. O que torna uma pessoa indigna para o serviço público não deveria ser o fato de ter atuado num desses filmes (sabe-se lá por conta de qual cilada a vida andou lhe armando). Acho que servidor público não pode ser, nem ter sido ou ter feito um bocado de coisa, mas estou me lixando para o fato de ele já ter sido um ator pornô. E daí? Se a profissão de ator pornô for um negócio tão terrível assim, como parece ser a opinião do senador, porque não desejar e até contribuir para que a pessoa tenha a oportunidade de exercer uma outra atividade profissional? Ao que tudo indica essa segunda carreira, se houver, não vai ser no serviço público, já que Pagliosa foi exonerado do cargo de dirigente no IAP. Aliás, justamente aí está o aspecto que muitos certamente hão de considerar verdadeiramente pornográfico na história:  Pagliose não chegou à direção do IAP após prestar concurso público (nem mesmo tem formação ambiental), ocupou o cargo graças a velha, boa e quase sempre pornográfica indicação política. Não foi o único, parece que todos os chefes regionais da autarquia, acho que eles são 20 ao todo, foram indicados pelos partidos políticos que apoiaram o governador Beto Richa, do PSDB. Bem pornográfico dirão alguns, ou muitos, ou centenas de milhares, quem sabe até milhões!, mas nunca jamais os indicados ou aqueles que os indicaram.

Monday, April 11, 2011

Defunto é o chato que não vai embora



Digamos que você resolveu matar alguém, que não tem outro jeito de resolver um problema aí em que você se enfiou, um problema dos grandes, mas que nem vamos comentar aqui, isso é assunto seu, ninguém tem que saber nada da sua vida. Mas o fato é que só matando mesmo pra você voltar a dormir sossegado – no máximo com sua consciência enchendo o teu saco. Consciência é o menor dos problemas que um homem pode ter, é bom que se diga. Consciência não mata e nem manda matar, o camarada tem que ser muito veadinho pra deixar de resolver um problema desses bem grandes, como esse aí em que acho que você se meteu e não vai me dizer qual é, porque não interessa nem pra mim e nem pra ninguém saber da sua vida, por causa de peso na consciência. Pois bem, o complicado de se matar alguém é que você resolve um problema e cria outro. É você matar alguém e criar um defunto, uma coisa leva à outra. E defunto é o chato que não vai embora. É pior que visita inconveniente, do tipo que aparece em sua casa, geralmente sem avisar, e vai ficando, tomando seu tempo e torrando sua paciência. Você precisa mentir, olha que coisa mais feia!, precisa dizer que seu pai está doente e que você precisa correr pro hospital ou que está na hora de buscar as crianças na saída da escola – e nem filho você tem. Pois o defunto é ainda pior que o amigo chato que vai pra sua casa e se esquece de ir embora. Defunto não vai embora mesmo. E um defunto em sua casa, porque vamos pensar que a coisa toda aconteceu na sua casa, um defunto que não morreu de livre e espontânea vontade, que não morreu naturalmente, que morreu porque você lhe enfiou um tiro na cara, por exemplo, é um defunto difícil de explicar. Se já é complicado como defunto fresco, imagina então quando ele começa a apodrecer. E é rápido! É o camarada morrer pra mil bactérias e mais isso e mais aquilo e sei lá mais o que começarem a foder com o corpo. E o camarada vai inchando e derretendo, inchando e derretendo, inchando e derretendo. E fedendo. E não dá pra simplesmente jogar o corpo fora, um cadáver não é algo que se coloque no lixo e o assunto está resolvido. Se livrar de um cadáver dá um trabalho do cão, mesmo que o finado seja franzininho, bem miudinho mesmo, o problema é grande, é enorme, e aí o leão está solto. Está solto e está atrás de você. E é muito difícil que o leão não te almoce ou te jante, porque leão é bicho bravo e sua casa é pequena, não tem como você fugir do leão. Não tem como se livrar do defunto com um leão rugindo atrás de você. E é tanta janela na sua casa que dificilmente aquela sua vizinha fofoqueira deixe de ver que há um defunto caído no meio da tua sala. E quando ela vir o presunto vai rugir pra todo mundo, com toda certeza, porque ela te odeia!!, que tem um defunto manchando seu tapete com sangue. Então, na vã esperança de que aquela leoa fofoqueira não tenha visto o cadáver, você começa a fechar as janelas e a apagar as luzes da casa e nesse esforço patético de esconder o que aconteceu, derruba coisas, faz barulho e termina chamando a atenção de toda a vizinhança. E se fode. E se fode pra valer, que aí os leões, os chacais, os urubus e as hienas todas que habitam perto da sua casa, na sua rua, essa bicharada toda começa a farejar que você fez alguma besteira e que eles finalmente irão se vingar de você ou que irão se vingar do mundo em você. E olha que o defunto ainda nem começou a feder tanto assim. Ah, mas isso não demora, é coisa pra daqui a pouco. Já te falei que defunto apodrece rápido não falei? E você acha que a urubuzada toda não vai sentir o cheiro da carniça? Outra coisa: e com toda a savana te espionando como é que você vai dar sumiço no corpo sem dar na vista? Vai cavar um buraco e enterrar? E como vai explicar pra suas visitas o estrago no piso, justo aquele porcelanato caríssimo que você comprou, de sei lá quantos paus o metro e cheio de frufrus? E que foi tão bem colocado, coisa difícil numa cidade onde a mão de obra é uma merda e é um milagre encontrar um bom assentador de piso? Outra coisa: e se o amigo morar em apartamento? Vai cavar um buraco no piso do apartamento? Só se a idéia for enterrar no apartamento de baixo, daquele síndico que vive querendo te ferrar. O que estou dizendo é que se vai matar, se você mesmo é que vai matar – porque cismou de fazer economia boba -, não vá matar em sua casa, entendeu? Mesmo que o candidato a defunto vá te aporrinhar na sua porta, te humilhar diante dos seus vizinhos, aquelas hienas. Em casa não, jamais. Nunca! Olha só, você achando que cobro caro e fico aqui perdendo meu tempo e lhe dando conselho de graça. Isso é comportamento de explorador? É que tem certas coisas que não dá pra fazer barato, entendeu? Porque o negócio não é só matar, é matar e ficar relaxado, livre de suspeitas. É, porque tem que pensar nisso também. O sujeito morreu com um tiro na fuça? Opa, vão se perguntar quem matou, entendeu? E no mínimo, se algum policial suspeitar de você, descobrir que foi você, vai te prender ou te chantagear pelo resto da vida. Já imaginou um policial te estorquindo, ligando pra você dia e noite, atrás do teu dindim, doutor? O defunto vai gostar de saber que você está se ferrando, porque é o que vai acontecer. Vai sair muito mais caro que esse dinheirinho aí que te falei, quer saber? Bom é quando você mata e nem parece que matou. Sei lá, faz parecer acidente. Acontece muito, está sabendo? E eu, modestamente, sou mestre nesse tipo de coisa. Ó, atropelamento, minha especialidade! Ninguém aporrinha ninguém se um cara foi atropelado. Ninguém fica pensando que foi um assassinato premeditado ou sei lá o que, entende? E aí não tem policial filho da puta ligando pra sua casa, pedindo grana, morou? Foi só um acidente de trânsito com vítima fatal. Foi só um motorista bêbado que atropelou alguém e fugiu sem prestar socorro. Então a gente não vê todos os dias no jornal?! O bom é que se a gente fechar e eu cismar de resolver desse jeito você nem vai ter certeza que fui eu mesmo. Vai que aconteceu de o cara ser atropelado mesmo? Pode acontecer. Você vai pagar mais pra se livrar de mim, mas com o tempo vai botar na cabeça que por uma dessas coincidências da vida o teu amigo aí foi mesmo atropelado por algum bebum e eu ganhei tua grana sem fazer força. Ó, nem peso na consciência você vai ter. Vai dormir tranqüilo, vai botar na cabeça que não teve nada a ver com isso e ponto final. Agora, nem pensar em atropelar o cara você mesmo, não ia dar certo. Estava te esperando e vi como foi difícil pra você estacionar. Puxa, uma vaga fácil daquelas!! Não vá me fazer nenhuma besteira que atropelar, mas atropelar propositalmente, não é para amadores. Sobretudo amadores barbeiros que nem o doutor, desculpa a franqueza. Bom, está na minha hora, preciso ir. Uma pena a gente não fazer negócio. Será que posso te ajudar de algum outro jeito? Te dar mais alguma dica? Fica tranqüilo que é de graça, o ‘explorador’ aqui não vai te cobrar por isso. Devia. Até devia cobrar, mas dinheiro não é tudo, não é mesmo? Falando em dinheiro, pelo menos a conta você vai pagar, não vai? Ufa!! Pelo menos isso. Pelo menos isso!! Mas como rico é mão fechada, meu Deus? O quê? O doutor não é rico, não tem tanto dinheiro assim? Está certo, está certo, já entendi. Não devia, mas vou lhe dar um desconto. Digamos que de vinte por cento, está bom? Metade agora e metade depois que o cara empacotar. O quê? Trinta? Nem a pau! Vinte!! Vinte é o que dá pra fazer. Não, não quero ouvir outra proposta. Até outro dia e passar bem. Espera aí? Mas esperar pra quê? Olha que tenho mais o que fazer, tenho filho pra criar, ex-mulher enchendo o saco, preciso ganhar dinheiro, doutor. Hein? O senhor aceita? Não acredito, mas não acredito mesmo. Pois fez um bom negócio, está sabendo? Pode esquecer o problemão aí em que você se meteu, que ele já está resolvido, compreendeu? Ah, e pede mais uma. Pede mais uma que estou com a goela seca de tanto falar. Difícil. O doutor não é cliente fácil. Mas que mão de vaca, meu Deus! Rico é tudo mão de vaca! Vai ver por isso é que é rico. É, vai ver que é.